FALE, HAGAR!
Postado por Joyce | Arquivo em FALE MULHER
Eu já li em algum lugar que a pior doença do vigésimo século não é nem câncer, e nem AIDS–sabe qual é? A solidão. E estou quase acreditando na opinião do autor, pois a gente conhece tantas pessoas que vivem numa solidão tremenda, constante, dolorosa. Será que a Bíblia trata deste assunto? Afirmar piamente que o salmista disse que “Deus faz que o solitário more em família” (Sl 68:6) não deve ser aquele consolo profundo para quem não tem ninguém, e tem que enfrentar mais um domingo, mais uma refeição, mais um Dia das Mães, mais um Natal–sozinho. E o engraçado é que este mal, esta doença, é tão comum hoje em dia, não é? Vivemos rodeados por milhares de pessoas, mas sozinhos. Moramos em enormes prédios de apartamentos, mas sozinhos. Viajamos em cada ônibus superlotado, mas sozinhos.
Havia uma mulher na Bíblia que sabia o que era a solidão–seu nome é Hagar. Hagar aparece pela primeira vez em Gênesis 16, mas o trecho que retrata toda a solidão dela é Gn 21:8-21. Pegue sua Bíblia, e leia de novo este relato. Na ocasião o filho de Abraão e Hagar, Ismael, tem seus 17 anos, e o texto começa no dia da festa especial para o filhinho de Abraão e Sara, Isaque, que devia estar com seus dois ou três anos. A festa não foi nenhum bolinho e guaraná depois do culto! Foi um banquete para celebrar o fato de Isaque ser desmamado, dele ter vencido aqueles primeiros aninhos difíceis na vida de cada ser humano. Mas agora as doenças infantis, as noites mal dormidas, o choro de menino pequeno–tudo isso já se foi. É hora de festejar! E naturalmente toda a família se fez presente, inclusive Hagar e Ismael. E Ismael “caçoava de Isaque”, isto é, eles estavam brincando, como na tradução da Imprensa Bíblica. (A mesma palavra aparece em Gn.19:14 quando a família de Ló pensou que ele estava brincando ao sugerir que eles fugissem de Sodoma.) Após 14 anos sozinho, recebendo toda a atenção de todos, Ismael agora tem um irmãozinho para entreter: se ele tinha ou não ciúmes, não sabemos, mas o certo é que Sara tinha! Convencida que o adolescente representava uma ameaça para seu filho e a herança dele, Sara foi taxativa: em plena festa, foi até Abraão, e de cara bem fechada, estragou a festa para todo o mundo, exigindo que “essa escrava e seu filho” fossem banidos. Ela nem teve a coragem para usar os nomes dos dois–parece até que ela esqueceu que a idéia de Abraão ter o filho por meio de Hagar foi dela, e de mais ninguém.
E o que foi que Abraão fez? Bem, em dia de festa, o que fazer? Ceder diante da insistência da verdadeira mãe do verdadeiro filho, e mandar os outros embora. Ficou com pena porque gostava muito do rapaz, mas era o jeito. Dormiu mal, levantou-se de madrugada para despedir os dois antes de Sara acordar e falar novamente.
A cena dá um nó na garganta–de um dia para o outro, sem casa, sem marido, sem apoio, sem abrigo, sem mordomias, sem companhias … sem nada, Hagar e Ismael saem para enfrentar o mundo. Errei. Tinham algo, um presentão, água e pão–e não iam para enfrentar o mundo. Iam para o deserto. A mãe solteira e o adolescente traumatizado: uma triste mulher cuja família natural morava tão longe no Egito, e um rapaz mimado durante anos, e agora sem herança e sem pai.
E um olha para a cara do outro: Aonde vamos? O que faremos? Para que tamanha confusão? Eles não sabem que a gente sabe muito bem quais são as regras do jogo nestas circunstâncias? Claro que a herança será para Isaque agora. Não há nem o que discutir…. Mas a gente podia ter ficado na casa…. “Filho, não adiante nem falar assim agora. Fique quieto. Meu Deus! O que será de nós dois?”
É solidão. E muita solidão. Mas penso que Hagar já sabia o que era isso. Em Gn 16:1-14 o relato destaca alguns elementos chaves para uma interpretação da vida desta mulher. Ela era uma escrava egípcia, isto é, de um povo desprezado. Ao descobrir que ela estava grávida, desprezou a Sara (16:4), foi humilhada por ela, e acabou fugindo, para o deserto. Foi ali que o anjo a encontrou, lhe fez algumas perguntas (16:7,8), e mandou que ela voltasse à patroa rica e pedisse perdão a ela. Antes, porém, de sumir, o anjo prometeu que Hagar teria uma descendência numerosa e indicou qual deveria ser o nome de seu filho.
FALE, HAGAR! O que aprendeste acerca da solidão?
1. O nome do filho dela, Ismael, quer dizer, Deus ouve, pois, como o próprio anjo disse, “O SENHOR te acudiu na tua aflição” (16:11). Deus ouve, Deus vê, Deus acude aos solitários.
E essa verdade foi o motivo pelo qual Hagar louvou a Deus, invocando Seu nome, e testemunhando, Tu és um Deus que vê. Hagar conhecia a Deus, o Deus que a via em toda sua miséria e solidão. Ela pôde provar que é possível ser solitária, sem estar sozinha, e a experiência valeu–por um pouco de tempo. Mas, de novo, a solidão bate. E essa vez é bem pior, pois a confusão é total e ela tem que pensar no rapaz….
2. Será que Hagar foi de um temperamento um pouco depressivo? É difícil julgar. Quem não choraria em semelhante situação? Acabada a água–e o pão, nem fale! acabou logo!–ela fez que nem a irmã de Moisés. “Ficou de longe, para observar o que lhe haveria de acontecer” (Êx.2:4). Talvez não quisesse ter que responder de novo às intermináveis perguntas de Ismael. De qualquer forma, a tristeza bateu de novo–e o anjo também! Adoro as perguntas deste anjo. Repare nelas! “Donde vens? Para onde vais?” (16:8) E agora, para variar, “Que tens?” (21:17) Não! não são perguntas de anjo bobo: é o toque carinhoso do Deus que sabe da vida do solitário, que nos vê quando estamos sem ninguém, que oferece seu ombro para a gente chorar, que abraça aquele que nunca recebe um abraço. É ser solitária–sem estar sozinha.
3. E mais, este Deus tem um santo remédio para a solidão. “Ergue-te, levanta o rapaz, segura-o pela mão” (21:18). Deus sabe que a pior coisa que se pode fazer numa situação destas é ficar sentada num canto choramingando. “Pense no rapaz, Hagar! Você tem responsabilidades! E EU estou contigo. Já prometi estar com vocês, e repito minha promessa. Você está solitária, mas não está sozinha!” Hagar olhou, e lá no meio do deserto havia um poço e água em abundância. Foi quase assim que Deus lidou com Elias séculos depois. Solitário e super deprimido (1 Rs 19:14) ele também teve um encontro com o SENHOR e recebeu instruções sobre aquilo que ele devia fazer (1 Rs 19:15).
Nos dois casos o remédio funcionou. Hagar teve condições de criar seu filho, até viu-o se casar. E fim da história?
4. Não. Creio que ainda há algo mais neste relato singelo para nós. A solidão não-tratada pode levar à depressão, até ao suicídio: mas pode também levar à amargura de espírito. Aquelas constantes perguntas e recriminações são levantadas. Por que Deus permitiu isso? Podia ter dado amigos, parentes mais amorosos, podia ter poupado a vida do meu marido…. Percebe-se, porém, nos capítulos seguintes que Hagar parece não ter seguido esse caminho da amargura. Gênesis 25 é um capítulo fascinante. No v.5 nós lemos que Abraão deixou toda sua herança para Isaque, como era de se esperar. Mas, repare como ambos os filhos, Isaque e Ismael, se fizeram presentes na ocasião do sepultamento do pai (Gn 25:9). Também, é-nos dito que Isaque morava “junto a Beer-Laai-Roi” (25:11), isto é, exatamente naquele lugar onde Deus primeiro Se revelou a Hagar (16:14). Será que a própria Hagar não incentivou um pouco para que estas coisas acontecessem? Tenho certeza de que, se ela tivesse transmitido atitudes negativas, críticas constantes, quanto a Abraão, ou não tivesse falado a Isaque da bênção que ela encontrara em Beer-Laai-Roi, estes textos não estariam na Palavra de Deus. Solitária, mas não sozinha, e jamais azeda.
5. Tenho pensado também na situação constrangedora de Abraão. Este amava profundamente a Ismael, e mesmo quanto ele recebeu de Deus a promessa renovada de um filho para Sara, ele não se esqueceu do filho de Hagar. Observe em 17:18 como ele pediu que Deus continuasse a abençoá-lo. Aqui também Hagar nos ensina, pois é tão comum nestas dolorosas situações familiares de segunda família, madrastas e padrastos, fomentar amarguras e confusões–que, no fim do dia levam somente a uma solidão maior, a uma decepção ainda mais profunda. Solitária, mas não sozinha–sempre há um outro que se sente solitário também.
Sim, há lições especiais a serem aprendidas de Hagar. Infelizmente, porém, nós temos a tendência de olhar para ela bem negativamente e ela é uma pessoa que ocupa uma posição solitária dentro da própria Bíblia até. Quase que nós a temos como amaldiçoada por Deus. Pense bem! Quando você pensa em Hagar normalmente você pensa em Hagar em comparação com Sara, não é mesmo? Pois, como escreveu Paulo, “Estas mulheres são duas alianças: uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Hagar” (Gl 4:24). E deduzimos logo, que, de fato, sendo nós “filhos não da escrava e, sim, da livre” (Gl 4:31), Hagar não nos diz respeito. Ela vira símbolo de miséria espiritual, e deixa de ser gente como a gente, uma pessoa com quem Deus trabalhou com cuidado e carinho especial.
E a dolorosa realidade atual não é diferente; muitas vezes a pessoa solitária é rejeitada, vira símbolo de inferioridade, de maldição, e, abraçando os extrovertidos, nós viramos as costas para os solitários e estes ficam mais solitários ainda. Solitários, mas não sozinhos, pois como Jesus mesmo disse, “Me deixareis só; contudo não estou só, porque o Pai está comingo.” (João 16:32) E prometeu estar conosco também, “todos os dias, até a consumação do século” (Mt 28:20). Muito obrigada, Hagar, por nos ter falado. Sua angústia, sua solidão valeu.
Joyce E. Winifred Every-Clayton é britânica, nascida na Irlanda do Norte, e reside no Brasil com seu esposo Glenn T. Every-Clayton desde o último dia de 1972. É missionária de Latin Link (antigamente chamada de União Evangélica Sul Americana, UESA) atuando na área de ensino teológico. Mora no Recife, e ensina especialmente em cursos de pós-graduação na cidade e região. É formada em Geografia, e também em Teologia (Univ. de Londres), com Mestrado e Doutorado no Brasil, na área de história eclesiástica. Tem 7 livros publicados, 3 micro-histórias de igrejas evangélicas nordestinas, e 4 livros na área de Antigo Testamento, os comentários sobre Rute e Ester publicados pelo Encontrão, Curitiba, e Fale, Mulher volumes 1 e 2.




irmã Joyce, que maravilhoso e compreensivo estudo sobre Hagar…
Deus te abençoe ricamente…
pr Wandercy F Fonseca
Querida profª Joyce,
Aprendi muito com a vida de Hagar. Este maravilhoso texto muito edificou a minha vida e me trouxe a memória que o Senhor nos dá esperança e que mesmo quando parecemos estar só, o Senhor está cuidando de nós. Aparentemente o problema enfrentando por esta mulher não tinha solução…
Deus te abençoe!