Fale, majestade!

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Não me contaram a metade”. Você já disse isso depois de ter assistido uma festa linda, ou visitado um novo Shopping Center?

Pois foi assim que a rainha de Sabá falou em plena festa na corte do rei Salomão. O relato em 1 Rs 10:1-13 é por demais conhecido mas, mesmo assim, vamos parar um pouco e escutar a FALA desta mulher.

Seus empreendimentos variados — o Templo magnífico, palácios, cidades, armazéns e estábulos (conferir 1 Rs.5-9) — fizeram de Salomão um rei cuja fama se espalhou por todo o mundo. E quando a notícia chegou à Arábia (mais ou menos o Iêmen de hoje) a rainha decidiu investigar o caso. Tente imaginar a cena – a rainha e uma verdadeira multidão de empregados e empregadas começam a arrumar as malas. Haja encomendas especiais e compras cuidadosas, “especiarias e muitíssimo ouro e pedras preciosas” (1 Rs 10:2). E o que é que você daria a um homem que já tem tudo?! Sem nenhum problema de excesso de bagagem, eles colocaram malas e baús e bolsas e caixas … o que desse, enfim, em cima de camelo após camelo, e a “mui grande comitiva” (2 Cr. 9:1) começou a longa viagem. Penso que não poucos humildes moradores nas tendas à beira da estrada de chão batido saíram para olhar a cena — e a rainha sentada numa carruagem especial acenava, sorridente e feliz porque ela ia realizar seu sonho e satisfazer sua curiosidade.A Bíblia afirma que ela tinha “ouvido a fama de Salomão, com respeito ao nome do SENHOR” (1 Rs 10:1), que ela percebera uma ligação entre a sabedoria de Salomão e o Deus a Quem ele servia. Chegando em Jerusalém ela não hesitou. Foi logo ao assunto com “todas as perguntas” (v.3) que tinha acerca desta fama, deste SENHOR. Salomão, por sua vez, não ficou para trás e, de imediato, “lhe expôs tudo quanto trazia em sua mente” (v.2). Além do mais ele mostrou-lhe “a casa … a comida da sua mesa, o lugar dos seus oficiais, o serviço dos seus criados e os trajes deles, seus copeiros” (v.4-5). E que mulher no mundo não gosta disso? de olhar tudo na Casa e Jardim dos outros?

Por fim, Salomão mostrou também “o holocausto que oferecia na casa do SENHOR” (v.5), e, após ter visto tudo, ela exclamou, “não me contaram a metade“, e passou a orar e impetrar uma bênção sobre o rei (v.9). Com a troca de presentes — as especiarias eram aquele sucesso (v.10) — e não havendo mais a tratar, ela foi-se embora para sua terra. E só.

O que é isso? Somente uma narrativa a mais, para embelezar os relatos acerca do grande rei, Salomão? para a gente ficar com inveja dos ricos e poderosos? FALE, MULHER!

Aquele rei era do povo de Deus, e a rainha não era. Mas o SENHOR, desde Sua primeira conversação com Abrão, sempre desejou usar Seu povo para abençoar nações pagãs: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12:3). A idéia era que estas nações seriam atraídas ao Deus de Israel devido à vida diferente do povo dEle. Mas não vingou, e Israel em geral era um desastre ambulante no que diz respeito a testemunhar a vida abundante, diferente, que é a vida com Deus. Vez ou outra alguém se destacava e os incrédulos reconheciam nele um homem de Deus — por exemplo, José em Gn 41:38-40. E foi o caso com Salomão. Sua sabedoria e seu Templo, e não somente suas riquezas, chamaram a atenção de todos, e, além do mais, Salomão conseguiu explicar sua fé, e toda a atuaç?o do SENHOR em sua vida. A oração da rainha aponta para isso. “O SENHOR teu Deus, … se agradou de ti para te colocar no trono de Israel; porque o SENHOR ama a Israel para sempre, por isso te constituiu rei, para executares juízo e justiça” (v.9). Como é que ela saberia destes detalhes, se ele não os tivesse contado? Mas ele contou-os, e desta maneira a evangelizou!

Aí está o sentido do episódio para nós — é um tipo de parábola de um método de se fazer missões, de evangelizar, qual seja, o de atrair a atenção dos incrédulos através de nosso próprio estilo de vida com Deus, despertando neles uma santa curiosidade acerca do SENHOR a Quem nós amamos. E o método funcionou com Jesus, o israelita perfeito! Lembra como “alguns gregos … se dirigiram a Filipe … e lhe rogaram: Senhor, queremos ver a Jesus” (João 12:20-21). Ou, ainda, como a mulher cananéia, pagã, procurou receber de Jesus a cura de sua filha endemoninhada (Mt 15:21-28). Será que ela, ao ouvir as palavras, “Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres” (v.28) não teve vontade de gritar, “não me contaram a metade“?

É por isso que a Bíblia Vida Nova diz que “percebe-se uma semelhança entre Salomão no reino terrestre e Jesus Cristo, o Rei da Glória. Compara-se a rainha à alma aflita, sequiosa de perguntas e dúvidas, problemas e pecados, que vem buscando a Jesus, para dEle receber a resposta às indagações do seu íntimo e a solução dos seus problemas, ficando ofuscada ante a grandeza deste rei; glorifica a Deus e traz-lhe ofertas. O rei, por sua vez, atende a todas as solicitações da visitante.”

Vamos então à fala da rainha. Notemos que

1. Salomão havia orado para que um episódio desses acontecesse. Logo antes, em 1 Rs 8:41-43, encontramos seu pedido: “que todos os povos da terra conheçam o teu nome” (v.43) e, pela fé, ele via pagãos subindo de terras remotas para adorarem o SENHOR ali (v.41). E Deus ouviu sua oração, é claro! Você, irmã leitora, tem costume de orar assim? Você se preocupa com as multidões, sim, com seus vizinhos que nunca ouviram falar de seu Deus, que não O conhecem? Comece orando, e Deus vai fazer como fez com a rainha, vai despertar a curiosidade destas pessoas, fazendo-as inquietas em relação a coisas espirituais.

2. Salomão “expôs tudo quanto trazia em sua mente”, permitindo que a rainha entendesse tudo acerca dele e de seu Deus. Posso fazer-lhe uma pergunta bem pessoal? Se uma amiga descrente aparecesse na porta de sua casa para provar você com “perguntas difíceis”, o que é que você faria? Corria para chamar o pastor? Diria que não se faz perguntas acerca destas coisas? Desviaria o assunto? Obviamente nós não temos a sabedoria de Salomão — “ele lhe deu resposta a todas as perguntas, e nada lhe houve profundo demais que não pudesse explicar” (v.3) — mas será que nós também não podemos nos preparar para fazer como ele fez? Lembra que algumas das funções do Espírito Santo visam exatamente isso: “Ele ensinará todas as coisas” (João 14:26), “Ele vos guiará a toda a verdade” (João 16:13)? Peça ao Espírito. E ao mesmo tempo, prepare-se! Quando foi a última vez que você leu um bom livro sobre a riqueza e profundidade de sua salvação? “Procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2:15).

3. Salomão teve a coragem de mostrar-lhe tudo, a casa e todo que tinha e fazia. Você teria mesmo coragem para convidar aquela mesma amiga descrente para passar algum tempo em sua casa, para ver como é que você vive, o que é ser crente — como você resolve seus problemas, gasta seu dinheiro, conversa com seu marido, disciplina os meninos, lida com a faxineira, grita para o cachorro….? Será que sua amiga sairia dizendo “não me contaram a metade. Ser crente é mesmo coisa boa! Eu é que não sabia, pois pensei que fosse algo chato para os domingos: agora, vejo que tem a ver com toda a vida da gente.”

4. “Eu não cria … até que eu vim, e vi com os meus próprios olhos” (v.7). Parece que a rainha está a nos dizer que ela ficava lá na Arábia pensando nos boatos que escutava acerca de um Deus diferente, de um povo diferente. Mas ela não conseguiu crer — enquanto não fosse ver. Sem dúvida, alguns dos nossos amigos e parentes estão na mesma situaç?o: se sentem atraídos, curiosos, querem provar a comida diferente para ver se a nova receita vai funcionar. Compete a nós fazer com a mulher samaritana que insistiu: “Vinde comigo, e vede” (João 4:29). Ela bem sabia que o incrédulo quer ver, e, dito e feito, os curiosos foram. Mas logo eles mesmos decidiram, “Já agora não é pelo que disseste que nós cremos; mas porque nós mesmos temos ouvido e sabemos” (João 4:42). Será que a transformação operada em minha vida atrai outros para o Salvador? Muitos em Samaria “creram nEle, em virtude do testemunho da mulher” (João 4:39).

5. Jesus comendou esta mulher e sua ânsia de ouvir a sabedoria do rei, contrastando-a com a recusa constante dos ouvintes dEle que nunca prestaram a devida atenção Àquele que era bem maior do que Salomão. Isso não quer dizer, porém, que ela tivesse se convertido. As palavras lindas de 1 Rs 10:9 demonstram que ela entendeu bem a relação entre Deus e Seu povo, mas é bem provável que não passassem de um reconhecimento do fato que o Deus da nação de Israel era o SENHOR e não um deus pagão qualquer. Lembra que Hirão, rei de Tiro, havia se expressado da mesma maneira (1 Rs 5:7). Não podemos afirmar que a rainha havia aceito o Deus de Israel como o Deus pessoal dela, ao ponto de rejeitar todos os demais deuses. Mas, pelo menos, ela entendeu o bastante para fazer isso, caso quisesse. Aí está o desafio para nós. O que é evangelizar, enfim? Eu não posso salvar a ninguém; eu só posso apontar para Cristo e Sua cruz e tentar falar daquilo que Ele fez ali. Só posso atrair e falar, confiando que o SENHOR vá fazer todo o resto. Mas, é preciso que eu faça pelo menos isso, atraindo, qual um ímã, a todos ao Maior do que Salomão, visando escutar deles as palavras “não me contaram a metade. Que Deus maravilhoso você tem!”

6. E quem pode fazer uma coisa gloriosa destas? “Dispõe-te, resplandece, porque vem a tua luz, e a glória do SENHOR nasce sobre ti…. Sobre ti aparece resplendente o SENHOR, e a sua glória se vê sobre ti” (Is 60:1-2). E é precisamente por isso, por essa glória que já está sobre o povo de Deus, que o versículo seguinte diz: “As nações se encaminham para a tua luz, e os reis para o resplendor que te nasceu” (Is 60:3). Quer que incrédulos apareçam para saber de teu Deus? Você pode atraí-los, na medida em que for cheio da glória deste mesmo Deus. E, vendo esta glória magnífica, eles realmente vão exclamar, não nos contaram a metade! Mas vai ser difícil: o único que conseguiu fazer isso com perfeição era Jesus. Este texto de Isaías está falando principalmente dEle, como também o Salmo 72:10-11: “Paguem-lhe tributos os reis de Társis e das ilhas; os reis de Sabá e de Sebá lhe ofereçam presentes. E todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações O sirvam.”

FALE, MULHER! Que me dizes? “Faça o seguinte. Ore, saiba explicar, não se esconda de quem tiver dúvidas, brilhe qual uma luz fantástica! Assim eu e muitas outras irão correndo para saber de seu Deus.” Corramos, irmãs, para pedir sabedoria Àquele que é maior do que Salomão, e outros correrão para nós.

Joyce E. Winifred Every-Clayton é britânica, nascida na Irlanda do Norte, e reside no Brasil com seu esposo Glenn T. Every-Clayton desde o último dia de 1972. É missionária de Latin Link (antigamente chamada de União Evangélica Sul Americana, UESA) atuando na área de ensino teológico. Mora no Recife, e ensina especialmente em cursos de pós-graduação na cidade e região. É formada em Geografia, e também em Teologia (Univ. de Londres), com Mestrado e Doutorado no Brasil, na área de história eclesiástica. Tem 7 livros publicados, 3 micro-histórias de igrejas evangélicas nordestinas, e 4 livros na área de Antigo Testamento, os comentários sobre Rute e Ester publicados pelo Encontrão, Curitiba, e Fale, Mulher volumes 1 e 2.

2 Respostas to “Fale, majestade!”

  1. Shirley Neves disse:

    Fantástico!!!!!!!!

    Eu nunca tinha lido esse texto com esse olhar evangelísitco. Muito obrigada pela oportunidade de aprender um poco mais.
    Deus te abençoe!

  2. Arsento disse:

    I read a few topics. I respect your work and added blog to favorites.

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