FALEM, MENINAS!
Postado por Pr Lyncoln | Arquivo em FALE MULHER
Cinco filhas em casa — nenhum menino. Imagine você a agitação na casa de Zelofeade na hora dessas garotas se arrumarem para ir a qualquer lugar; ou o barulho constante das cinco falando de uma só vez, o tempo todo! Fico até com pena do pai.
Quando Zelofeade faleceu, elas, as cinco, bem unidas, foram conversar com o grande líder, Moisés, e lhe fizeram um pedido corajoso. Se quiser verificar o texto, abra sua Bíblia em Números 27.1-11. Repare o pedido no versículo 4: “Dá-nos possessão entre os irmãos de nosso pai.” Será que eram as primeiras feministas, erguendo sua bandeira bem alto, inconformadas com a Lei que as excluía de qualquer herança material?
Vamos ver o que elas nos falam hoje: eram cinco! Sem dúvida, têm algo a nos dizer!1. O que elas disseram
Sem querer esconder sua queixa (v.2), elas recordaram perante todo o povo de Deus que seu pai não participou da rebelião de Coré (Nm 16), embora morresse “no seu próprio pecado” (Nm 27.3). Isto quer dixer que ele era um dentre a grande maioria que não deu crédito ao relatório positivo dado por Josué e Calebe sobre a Terra Prometida, e que, como conseqüência, ficou “prostrado no deserto” (1 Co 10.5). Enfim, ele não era perfeito, mas também não era totalmente ruim!
Conforme a tradição em Israel, quando um pai falecia, toda a herança era dividida entre os filhos homens, sendo que o mais velho recebeu o dobro dos outros. Mas as meninas, coitadas, nada recebiam. As que se casavam recebiam seu dote, um presente nupcial que variava conforme as possibilidades financeiras do pai. Um pai rico dava terras, jóias, dinheiro, móveis e etc., mas o pai pobre…. Você já adivinhou! Coitadas das meninas! “Shalom, minhas filhas. ‘O Senhor use convosco de benevolência…. O Senhor vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido’ (Rt 1.8-9). Apareçam aqui em casa de vez em quando.” E elas tinham que se virar com a família do esposo.
A situação das cinco filhas de Zelofeade era até pior, pois o drama delas era ver a herança se transferir para os irmãos do pai — havia uma ordem bem especificada nestes casos, como demonstra o livro de Rute. E quem não gostasse muito daquele tio tinha de suportar a decisão dura.
2. O que Moisés disse a Deus
É bom notar que o grande líder não desprezou este pedido bem prático e nem tampouco o Senhor deixou de se interessar pelo caso. Aliás, é preciso frisar que questões de justiça sempre são do interesse de nosso Deus: é o que se espera de um Deus justo.
Você recorda a pergunta feita na parábola? — “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lc 18.7) Contudo, talvez alguém lembre um outro momento no Evangelho de Lucas, quando Jesus recusou ajudar na divisão de uma herança (Lc 12.13-14), justamente pelas razões que temos esboçado. Tratava-se de dois homens, e a Lei era perfeitamente clara, de maneira que Jesus não precisou interferir.
Mas Moisés buscou seu Deus justo (Nm 27.5) procurando receber dEle orientação para um assunto delicado. Delicado, por ser uma questão da Lei já decidida por Deus em Sinai. Mudar a Lei?
3. O que Deus disse a Moisés
“As filhas de Zelofeade falam o que é justo” (v.7). Dê a herança às mulheres! Será que as belas não deram alguns gritos de alegria ao ouvirem a notícia boa, surpreendente? Penso que sim. Mas vamos com calma. Deus muda sua Lei desse jeito? No comentário sobre Números (por Gordon J. Wenham, publicado pela Editora Mundo Crist?o, São Paulo, 1991) há a seguinte observação: “O caso das filhas de Zelofeade é extremamente interessante. Mostra como muitas das leis da Bíblia vieram a ser postas em prática. Quando se levantava um problema sem precedentes, ele era levado a Moisés, que então buscava a direção de Deus. A decisão então tomada se tornava um precedente para casos semelhantes que surgissem no futuro” (pág. 200).
Digamos, então, para encurtar a história, que a primeira lei a respeito de heranças era a que se apresenta aqui, implícita no versículo 4. Mas surgiu uma nova circunstância com a morte de Zelofeade e Deus ordenou que a Sua Lei fosse mudada de acordo (vs.8-11). No final do livro de Números encontramos mais uma etapa na caminhada desta legislação: “Foi ordenado pelo Senhor que a herança de nosso irmão Zelofeade se desse a suas filhas. Porém, casando-se elas com algum dos filhos das outras tribos dos filhos de Israel, então a sua herança seria diminuída da herança de nossos pais e acrescentada à herança da tribo a que vierem a pertencer” (Nm 36.2-3). Elas podiam receber a herança, “contanto que se casem na família da tribo de seu pai. Assim a herança não passará de tribo em tribo … pois as tribos dos filhos de Israel se h?o de vincular cada uma à sua herança” (Nm 36.6, 9).
Como entender essas modificações legais? Creio que há uma pista nos Evangelhos, pois, séculos depois, comentando acerca do sábado, algo também regulado pela Lei de Deus, Jesus afirmou que “o sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mc 2.27). Isto é, as pessoas são mais importantes do que as leis, e é preciso evitar legalismos rígidos na hora de interpretar a Lei de Deus.
4. Falem, mulheres!
Que acham da resposta à queixa? Pelo jeito, elas não tiveram nenhum problema com a orientação dada em Números 27, nem com a orientação posterior de Números 36, pois se casaram com “filhos de seus tios paternos” (Nm 36.11), e fim da história.
Mas para nós, leitoras da Bíblia no vigésimo século, a história só começa aqui, o texto bíblico não é como um museu que você entra para olhar algumas peças antigas. Após um olhar rapidinho, e os comentários tradicionais — “que bonitinho” — a gente sai à clara luz do sol e esquece o passado que se foi — e que não nos diz respeito. Então vamos tirar esse texto do museu de nossa cabeça.
4.1. Que tal pensar nestas filhas de Zelofeade como mulheres cheias de fé? Afinal, ninguém entrou na Terra Prometida ainda, e aqui estão cinco mulheres que, distanciando-se da incredulidade de seu pai — lembra que ele não deu crédito a Josué e Calebe — assumem uma postura de verdadeira fé na promessa de Deus. Na hora da repartição futura da terra entre as tribos elas não admitem a possibilidade de a família delas estar ausente, e o nome de seu pai esquecdio. O comentário que já foi citado compara a ação destas mulheres à da mulher em Mateus 26.13, onde Jesus afirmou que aquela que ungiu Seus pés seria lembrada para todo o sempre.
4.2. Que tal pensar nestas filhas de Zelofeade como mulheres de visão? Muleres cuja perspectiva não se limitava a esta vida, ao aqui-e-agora, ao arroz e feijão de cada dia? Em dias de hiperinflação (errei, não é? Dizem que a inflação vai acabar. Mas vamos ver. Depois eu corrigirei a palavra — havendo necessidade, é claro!), de luta dura para sobreviver, é tão fácil não se dar ao luxo de pensar. De pensar como serão as coisas depois, de sonhar um pouco com Deus, de refletir sobre filhos e netos, e a caminhada de cada um. Humanamente falando, estas cinco filhas de Zelofeade são pobres desamparadas, sem recursos, sem renda fixa, sem direitos legais — para todos os efeitos, o futuro não é nada bom para nenhuma delas. Mas não se percebe nelas desespero, e sim, esperança. Esse “seja o que Deus quiser” com que nós nos afligimos às vezes, não fazia parte do vocabulário delas. Levante sua visão um pouco! Por pior que seja a situação sempre podemos esperar, e sonhar com Deus, e com as promessas dEle.
4.3. Que tal pensar nestas filhas de Zelofeade como professoras que nos ensinam acerca do valor que Deus dá a coisas materiais? Questões da terra, de herança, de bens materiais interessam a Deus. De fato, para Israel a terra era tão preciosa que o bom uso dela foi cuidadosamente regulamentado, e nada era mais vergonhoso do que uma herança familiar dissipada. A terra era a maior presente de Deus para Seu povo, sinal tanto de sua dependência total de Deus, como da inteira confiabilidade de Deus (há um bom livro a respeito, Povo, Terra e Deus, por Christopher Wright, publicado pela Aliança Bíblica Universitária, São Paulo, 1991). Muitas vezes nós dividimos a vida em compartamentos — a vida secular e a vida religiosa; mundo e igreja; profano e santo; material e espiritual. E Satanás fica feliz quando chegamos à conclusão de que Deus não se interessa por questões corriqueiras, materiais, pois desta maneira Deus fica de fora de nossa cogitação. Decidimos e agimos sem que Ele apite em nosso mundo secular. Como é diferente a visão bíblica! — “Ao Senhor pertence a terra, e tudo o que nela se contém” (Salmo 24.1).
4.4. Que tal pensar nestas filhas de Zelofeade como radicais (calma, eu não disse feministas!) que conseguiram fazer uma distinção entre Lei que é bênção para a humanidade, e legalismos que atrapalham? Eu não sei de você, mas eu não tenho nenhuma dificuldade para imaginar o texto de Números 27.5 totalmente diferente:
“Moisés disse às cinco filhas de Zelofeade: — Vocês não lêem Bíblia? O que está escrito está escrito. É pecado mudar. Se seu pai soubesse … puxa! Esses jovens de hoje inventam cada um. São tão rebeldes que eu nunca vi. Voltem para sua tenda e parem com essa conversa agora. Eu não quero saber mais desse assunto.”
É, minha irmã, legalismos começam desse jeito. “Você não lê sua Bíblia? Mulher não pode vestir roupa de homem. Quando eu era menina a mulher obedecia, mas agora é tudo diferente. Ninguém obedece mais a ninguém. Querem mudar as coisas — e sempre para pior.” Ou ainda: “Você não lê Bíblia, meu jovem? Na igreja sempre foi feito assim, e assim vai continuar. Para que mudar o que Deus abençoou? Esssas novidades diabólicas só servem para dar confusão.”
Ninguém está dizendo que não é para ler a Bíblia. Muito pelo contrário! Mas, eis o problema! Como ler a Bíblia? Ou melhor, como aplicar os muitos princípios bíblicos à nossa realidade, sem ferir o espírito da Palavra?
Jesus trabalhou estes problemas em diversas ocasiões com seus discípulos. Além da questão (já mencionada) do sábado, podemos citar, por exemplo, a discussão em Mateus 23.23-24 sobre o dízimo. O zelo farisaico reduzia a Lei de Deus a umas exigências absurdas que extrapolavam totalmente a visão da Lei na conceituação de Deus. Contar as folhas miúdas de hortelã para depois separar a décima parte, ou contar os grãos de cominho…. Já pensou no tempo para fazer isso? É claro que não sobrou tempo nenhum para a prática dos “preceitos mais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas cousas, sem omitir aquelas” (Mt 23.23).
E é essa mesma misericórdia que nos ajuda a não colocar aquele jugo pesado de legalismos miúdos e chatos nas costas das filhas de hoje. E é essa mesma justiça que nos ajuda a ser como Moisés que recorreu a um Deus justo, o Infinito, o Doador da Lei, em vez de repetir piedosamente o passado, sem ter que pensar em possíveis alterações. E é essa mesma fé que nos ajuda a enxergar além das nossas próprias queixas para perceber toda a Terra prometida que Deus quer nos dar.
Mas se você ficar contando cuidadosamente, como folha por folha, os usos e costumes, as calças compridas e unhas pintadas, os anos de tradições bem guardadas que são a nossa história bonita…. Se você ficar fazendo isso, uma coisa eu lhe garanto, você não vai ter tempo mesmo para pensar em nada, nem na Bíblia, e muito menos em suas próprias filhas, na geração de hoje que tem que enfrentar um futuro desconhecido, precário, quem sabe. Qual a herança que nós estamos deixando? Será que terão o que repartir? Mas essa já é uma outra questão não menos profunda.
Como eu disse no início, o certo é que essas filhas de Zelofeade têm muito a nos dizer — porém, não na área de direitos da mulher, como a expressão é entendida popularmente! Há outros textos do Antigo Testamento que seriam mais apropriados caso quiséssemos algo nesta área. Elas não estavam tão interessadas em direitos como tais: elas estavam interessadas na bênção que são as promessas de Deus concretizadas em suas vidas. E essa me parece ser a opção verdadeira para a mulher de hoje também.
Valeu, meninas! Obrigada por suas atitudes respeitosas, por sua grande visão, por sua fala tão sincera! Vocês dignificam o nome mulher.
Joyce E. Winifred Every-Clayton é britânica, nascida na Irlanda do Norte, e reside no Brasil com seu esposo Glenn T. Every-Clayton desde o último dia de 1972. É missionária de Latin Link (antigamente chamada de União Evangélica Sul Americana, UESA) atuando na área de ensino teológico. Mora no Recife, e ensina especialmente em cursos de pós-graduação na cidade e região. É formada em Geografia, e também em Teologia (Univ. de Londres), com Mestrado e Doutorado no Brasil, na área de história eclesiástica. Tem 7 livros publicados, 3 micro-histórias de igrejas evangélicas nordestinas, e 4 livros na área de Antigo Testamento, os comentários sobre Rute e Ester publicados pelo Encontrão, Curitiba, e Fale, Mulher volumes 1 e 2.



